sexta-feira, julho 17

Ducati Multistrada

Gabriella é um pecado mortal. Entre os vinte e poucos e os trinta e tantos, comem-na os machos com os olhos, desejam-na as devotas de Safo, mesmo os rapazes adeptos do amor grego sorriem a tanta beleza e elegância. Sorriem-lhe também os idosos, imaginando melancólicos o que poderia ter sido e nunca aconteceu.

Vestida para a jardinagem, o desporto, ou coisa de cerimónia, Gabriella é impecável no bom gosto, acrescentando sempre o pequeno toque que marca a distinção. Fora isso é um mistério. Sorri muito, fala pouco, supõe-se que tenha nascido num desses países turbulentos dos Balcãs, pois o seu rosto tem algo de eslavo. Mas porque fala à perfeição umas quantas línguas, há quem arrisque que vem da Hungria, terra de poliglotas.

Tudo suposições. O que faz? Que rendas pagam o seu luxo? Tentam os vizinhos resolver essas e mais incógnitas, pois não se lhe conhece emprego, marido ou amante, e ora há semanas que desaparece, ora a vêem todos os dias a passear o cão.

Ontem, a meio da tarde, resolveu-se o caso. Havia ajuntamento à porta, carros da polícia com as luzes azuis a girar, basbaques, garotada. Elegante como quem vai a passeio e sorridente como de costume, Gabriella entrou num dos carros. Algemada.

Nos jornais desta manhã lia-se que chefiava uma quadrilha internacional de ladrões de automóveis, que nasceu na Bulgária e se diplomou em engenharia mecânica. Perdeu-a o fascínio pelas motocicletas. A alguém tinha feito espécie vê-la conduzir uma Ducati Multistrada, depois uma Ducati Superbike, depois uma… Na sua garagem encontraram dez. De tipos diferentes.Todas roubadas, mas de que ela, talvez por paixão, não se queria separar.