terça-feira, abril 25

O chorudo vento dos moinhos

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A política é a arte de em vários planos alcançar poder e proveito, nela se movendo uma infinidade de personagens. Poderão os ditadores estar no topo, mas abaixo deles é longa a lista dos que, espertamente cautelosos, sabem alcançar poder e proveito, evitando o destino de um Saddam Hussein. Se por acaso lhes vemos o rosto, raro nos damos conta da influência que exercem sobre as nossas vidas, ou de como decretam até que ponto apertar o nó, de maneira a que continuemos a respirar, mas receando que de um instante para o outro nos falte o ar.

Poderá um ou outro ser apanhado com a boca na botija, mas esses só são interessantes como notícia e logo esquecidos, caso haja inundações ou um avião caia ao mar. Os que devemos temer e jamais veremos atrás de grades, são os artistas de topo na prestidigitação, que roubam dando ideia de nos favorecer.Num tempo mais sereno o lucro das companhias de electricidade revertia para o Estado, mas hoje a maioria é privada e tem por alvo o máximo benefício dos accionistas.

Como esse interesse particular se dá bem com o medo que causa o suposto aquecimento do planeta, promova-se então a energia eólica, que oferece o duplo benefício de, além de “verde”, ser  fonte de colossais subsídios que vão parar às mãos daqueles que, por serem ricos, dispõem dos instrumentos que lhes permitem encaixá-los.Na Holanda, onde vivo, os lavradores recebem 30.000 euros líquidos por cada eólica que instalam nos seus campos, subindo a milhares de milhões a importância necessária para subsidiar as energias “verdes e limpas”. 

Ora como o dinheiro não é de geração espontânea, há que ir buscá-lo aonde se encontra como que à mão de semear, simplesmente aumentando o preço e os impostos sobre a maléfica energia “suja”. 

Curiosamente, todos os partidos, ferrenhos que são na defesa do meio ambiente, escamoteiam  a realidade de que na Holanda, nos últimos dez anos, e mau grado os desproporcionados subsídios às empresas geradoras de energia “limpa”, as emissões de CO2 aumentaram 2%, enquanto na Europa diminuíram 25%. Também  dá que pensar o facto das confederações patronais apoiarem a entrada no futuro governo do partido “Groen Links” (bizarra coligação  da extrema esquerda, dos “verdes” e dos comunistas).

E é de facto como está no artigo donde tirei alguns dados: “Os fornecedores de energia “limpa” não cumprem, mas encaixam, e por recompensa receberão mais subsídios, para mais moinhos, sendo a conta apresentada às classes baixa e média. Alucinante.”   

 

Estava isto alinhavado, vem ontem um abaixo-assinado de nada menos que noventa catedráticos, a aconselhar que para lá das verbas já calculadas, se reservem ainda  duzentos mil milhões de euros para mais moinhos. É alucinante é, mas há tanto e tão bom dinheiro a ganhar com o vento.

segunda-feira, abril 24

Medrosos e deploráveis

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É lugar-comum, por vezes uma brincadeira, mas em certas ocasiões quase se toma a sério e não resiste a gente a dizer que, de uma maneira ou doutra,  “isto anda tudo ligado”. Acontece assim que ouvi pela primeira vez falar do nome Bertelsmann, quando em 2009 a Quetzal editou o meu ‘Com os Holandeses’, mal fazendo ideia de que a empresa, então proprietária da Bertrand e que pouco depois a venderia à Porto Editora, não era, como eu supunha, uma qualquer editora alemã, mas um conglomerado de emissoras de televisão e um dos gigantes multimédia a nível mundial.
Quis recentemente o acaso que a leitura de uma crónica no semanário holandês ‘Elsevier’ viesse despertar a minha curiosidade, aprendendo aí a existência de uma Fundação Bertelsmann (‘Bertelsmann Stiftung’), não só casa-mãe da empresa, mas com importantes  actividades de lobby junto dos organismos da União Europeia, nas quais despende anualmente para cima de 4 milhões de euros, ‘dando a impressão de nesses organismos viver de portas adentro’.
Poderosa como é, a Fundação Bertelsmann tem uma inegável influência na vida política alemã e na orientação das elites, a ponto que, segundo o cronista, ‘a quem quiser estar ao corrente das tendências da sociedade e da economia alemã basta a consulta dos relatórios da fundação’.
Num desses relatórios, em Novembro passado, era questão de analisar a atitude dos cidadãos relativamente aos problemas da mundialização, inquirindo-se dos interrogados se a consideravam uma ameaça ou uma oportunidade. Uma pequena maioria, 55 porcento, respondeu que será uma oportunidade, enquanto que 45 porcento vê na mundialização uma ameaça. Porém, conclui o relatório, estes últimos são sobretudo os que, dispondo de baixos rendimentos, com um nível de educação inferior e já idosos, tendem a simpatizar com os partidos populistas da direita.
Foi ao ler isso  que recordei as afirmações de Hillary Clinton, pois pelos jeitos não lhe cabe o exclusivo de considerar “deploráveis” aqueles que vêem uma séria ameaça na imigração massiva e falam abertamente do medo que os assalta ao terem consciência dos perigos que ressentem.
Termina o cronista afirmando que ‘pelos jeitos a elite alemã tem ideias bem diferentes das daqueles que considera serem medrosos e populistas da direita, e o seu desejo não é que a imigração diminua, mas aumente.’
Com que fim, e para defesa de que interesses, só o tempo o dirá, mas é pouco provável que então, como agora, os “deploráveis” tenham voz que se faça ouvir.
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Publicado na DOMINGO CM.

segunda-feira, abril 17

Os fossos que nos separam

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O sermos um país pobre e periférico põe-nos a salvo da problemática da imigração massiva e  dos refugiados, o que na Europa rica têm por consequência uma acentuada clivagem na sociedade, resultando num extremismo de sentimentos e opiniões de mau agouro.
Todavia, se as circunstâncias contribuem para que escapemos a tão grande problema, outros há criadores de fossos que a todos afectam. E esses são de tirar o sono a quem deles toma consciência, esteja o cidadão no início da sua carreira ou carregue nos ombros a responsabilidade pelo futuro dos filhos.
Para começar, espera-se que a curto prazo a digitalização ponha fim a várias profissões técnicas e administrativas, resultando daí que metade dos actuais estudantes do ensino secundário profissional não irá encontrar emprego. Essa ameaça estende-se igualmente a cursos universitários, como os de contabilidade, economia e semelhantes.
Rico ou pobre, nenhum país escapa ao fosso cada vez mais acentuado entre a província e a cidade, esta sendo sinónimo de juventude e dinamismo, enquanto aquela se distingue pela velhice dos habitantes, a falta de recursos, a tendência dos governos em considerá-la um refugo e, no melhor, bom local para instalar eólicas.
Maior do que nunca é a diferença entre as gerações. Uma das características de mudança nos anos 60 foi a do chamado fosso geracional, tendo a juventude passado a ser a norma, com os idosos a verem-se relegados para um terceiro plano, tanto económico como afectivo e, no geral, deixando de usufruir do respeito que até então lhes costumava ser devido.
É facto que o actual nível de vida não sofre comparação com o de há cinquenta ou sessenta anos atrás. Porém, em todos os países europeus se constata que os pobres se tornam cada vez mais pobres, ao passo que os ricos não param de enriquecer. Desde 1995, segundo as estatísticas, dois terços dos cidadãos europeus viram diminuir o seu poder de compra. Curiosamente, enquanto aumenta a oferta de emprego para os que têm um curso superior e, na prestação de serviços, para aqueles que ficaram pelo ensino básico, diminuem as possibilidades da classe média, que vê perigar a sua segurança e enfrenta uma maior concorrência, com o risco de descer ao nível da pobreza.
Um ponto positivo: factores como a classe social ou a família são cada vez menos determinantes,  contando sobretudo o do nível dos estudos, situação particularmente favorável no caso das mulheres, que assim vêem aumentar as possibilidades de independência. 
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Publicado na DOMINGO CM.