segunda-feira, maio 22

O Lobito e a Lisnave

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É brincadeira, maldade inocente, mas abusamos porque dá sempre resultado: há ocasiões em que ainda não se disseram as três sílabas do nome e já ele arranca nos elogios ao Lobito.
- Ah! O Lobito! Ali sim! Aquilo é que era cidade! Sabia-se  gozar a vida! As pessoas ajudavam-se! Tinha-se amigos!
E então, como se as palavras e o seu entusiasmo sejam o bastante para podermos viajar no tempo, lá volta ele a falar da beleza das praias, a grandura da restinga, o tamanho das lagostas, o asseio das ruas, as docas do porto, o que ali se juntava de navios. Uma maravilha à noite, ver lá do alto aquele mar todo iluminado. E o Catumbela? Que rio!
Se depois lhe censuramos o entusiasmo não leva a mal, mas nota-se que fica triste de nos mostrarmos insensíveis às descrições do que para ele foi um paraíso.
Lá nasceu e se criou, deixou-o já homem feito, sentiu-se desterrado, fazendo das tripas coração ao ver-se num país que desconhecia, onde o sol brilhava menos, e com uma gente a quem pouco faltava para lhe parecer estranha. Salvou-o a Lisnave.
- Vocês não conheceram aquilo! Era uma potência. Vinham patrões do estrangeiro, gente graúda habituada ao melhor, e ficavam de boca aberta. Porque se trabalhava ali na perfeição. Tudo certinho, alta qualidade, sempre dentro dos prazos. Ainda hoje sinto honra das coisas que lá fiz, tenho os diplomas para quem quiser ver.
Com um gesto de desalento levanta a canadiana, a acenar ao empregado para que lhe traga outra cerveja.
- O mal é que já não há homens, só bandalheira.
Chegado a esse ponto, e bebido um golo, esquece a Lisnave, o Lobito, as visões  do passado, começa a massajar lentamente o lado do fígado até que um de nós faça a pergunta ritual: - Isso vai melhor?
Olha o interlocutor como se a questão o surpreendesse, mas a resposta é sempre a mesma – “A muher reza, faz promessas, mas não vai” – e uma vez ou outra, para impressionar, puxa a camisa, põe à mostra a cicatriz da cirurgia que lhe fizeram o Verão passado.
- Facada de respeito.
Acenamos que sim, condoídos, porque lhe temos amizade, mas esforçando-nos por esconder a malícia, pois também agora o remate será o mesmo:
- No hospital do Lobito não faziam isto. Não me deixavam assim. Agora cá! Às vezes até me pergunto se estes gajos estudaram.
Faz uma pausa, e com as memórias a atormentá-lo muda de expressão, a quem o não conhece o desabafo parecerá raivoso, mas é dor verdadeira:
- Culpa do “Bochechas”, que entregou tudo aos pretos. Agora andam eles no chique e nós de tanga!
Publicado na DOMINGO CM.

segunda-feira, maio 15

O fandango da vida

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Conhecemo-nos há uma eternidade, giramos nos mesmos círculos, não gostamos um do outro mas mantemos o sorriso, a cortesia, informamo-nos calorosamente do bem-estar mútuo, trocando aquelas banalidades que são o lubrificante do trato social.
Ela é o que se costuma chamar um caso à parte e, mesmo de talento mediano mas bom observador, um qualquer cenarista facilmente a transformaria num inesquecível e cómico personagem de teatro.
Agita os braços e arregala os olhos, mesmo quando anuncia o comezinho. Também é muito seu o tique de, quando conversa, pôr os dedos em pinça e tocar o braço do interlocutor, dando a impressão de que o vai beliscar. Tinge os cabelos cor de cenoura, e com isso, o bâton de um vermelho agressivo, o exagero das sobrancelhas, os bonés de quadradinhos, calças de seda muito largas, sapatos muito bicudos, consegue um bom resultado na aparência com Popov, o falecido e famoso palhaço russo.
É tonta. As suas gargalhadas são espasmódicas. Se visita casa onde há piano insiste em tocar Chopin, que toca mal, muito mal. Adora falar francês, e na Gália inteira não há deus que lhe acuda quando desata aos pontapés à pronúncia e à gramática da língua de Astérix.
Jura que nunca lhe faltaram namorados. Se quiserem pode provar que na faculdade chegou a ser uma das odaliscas no harém do UTR, garanhão famoso, mas nunca foi de ligações duradouras. Casamento nem pensar. Garante que os casais felizes se contam pelos dedos de uma mão, e  mesmo esses nunca escapam aos dias em que em que o arrependimento vem ao de cima, mas então já é tarde. Por isso dá vivas à liberdade, nas suas palavras um bem que, seja na vida de cada um, no emprego ou na política, é o mais inestimável de todos.  Mas se na companhia em que está vê homem que lhe apetece, esquece os sessenta  e tantos, põe-se em requebros e trejeitos, faz beicinhos de menina.
Entre as pechas que lhe conheço, uma que sobremodo irrita é a de não devolver os livros que pede emprestados. Também gosta dos copos, mas aí há que confessar que então se torna engraçada, e sapateia como se tivesse nascido em Cádis, fazendo umas estonteantes demonstrações do fandango.
Telefonou a contar que tinha ido ao médico, porque há tempos se queixava de umas coisas vagas, mal-estar, o corpo inchado, às vezes tonturas. Das análises e dos exames concluíram que sofre de um tipo de leucemia muito agressivo e dão-lhe só meses de vida. Disse aquilo num tom calmo, eu repliquei com banalidades de que me envergonho e sinto remorso.
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Publicado na DOMINGO CM.

sexta-feira, maio 12

Salazar curioso


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Página de Na Sombra do Poder - Pedro Feytor Pinto

Convite

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quarta-feira, maio 10

terça-feira, maio 9

A Indonésia é longe, não é notícia




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Basuki ‘Ahok’ Tjahaja Purnama, cristão, ex-governador de Djakarta, a capital da Indonésia, citou o Corão para provar que os muçulmanos podem votar num não-muçulmano. Essa ousadia valeu-lhe uma pena de dois anos de prisão. 


segunda-feira, maio 8

Brad Pitt e Angelina Jolie

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Vai fazer trinta e quatro, separa-nos mais de meio século, é compreensível que seja diferente uma boa parte dos nossos interesses. Não que ele se desse conta ou isso me incomodasse, mas estranhei e franzi o sobrolho quando perguntou se eu tinha lido que com Angelina Jolie e Brad Pitt parece que as coisas continuam a correr mal.
Longe estava de imaginar que o intróito não era para o que eu julgava, tão-pouco, se mo pedisse, lhe saberia dar opinião ou conselho, adepto que sou do provérbio “entre marido e mulher não metas a colher”.
Casaram há cinco anos e vivem a vida alegre de quem tem saúde, gosta do que faz e desconhece aflições de fim do mês. Com boa cabeça, fisicamente atraentes, formam um par que, onde quer que chegue, restaurante, teatro, sala cheia, leva uns a voltar-se, outros franzem os lábios, incapazes de esconder a inveja.
Conta ele agora que no Verão passado, em Barcelona, um dia em que tinham sido convidados para uma festa em casa de amigos, despediu-se da mulher no hotel, dizendo que ia dar uma volta, de facto acanhado em lhe dizer que era para comprar uma gravata que lhe agradara.
Chegou ele primeiro, ela cientemente atrasada, como sempre faz, certa do melhor efeito.
- A Marta é muito bonita, mas quer acreditar que a não reconheci? Palavra. Não reconheci a minha mulher. Não era só o vestido, que nunca lhe tinha visto, mas a maquilhagem, o penteado, a altivez!... Não imagino como conseguira aquilo, mas era uma metamorfose total, no meio daquela gente tinha mesmo star quality!
Tossica, pega no copo e volta a pousá-lo sem beber, é como se hesitasse em continuar. Depois lá se decide, mas o relato sai-lhe emaranhado e por isso resumo.
Na manhã seguinte surpreendeu-se a pensar que Marta lhe parecia menos bonita, nem de longe tinha semelhança com a mulher espectacular em que se transformara para os amigos.
Tempos depois, como se fosse sem importância, pediu-lhe que se vestisse e penteasse como naquela noite em Barcelona. Ela recusou e, às gargalhadas, disse-lhe que se acautelasse com fetichismos. Tinha voltado ao assunto duas ou três vezes, mas ela apenas sorrira, dando-lhe a impressão que fazia do caso uma prova de força. De verdade desde esse dia algo mudou, a relação é diferente, é como se tivessem perdido a impulsividade que os unia.
Olha-me, como quem espera uma opinião ou um conselho, mas não sei que dizer. Depois, acanhado, ou talvez apenas para quebrar o silêncio em que ficámos, volta a falar de Brad Pitt e Angelina Jolie.
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Publicado na DOMINGO CM.