quinta-feira, dezembro 8

sábado, dezembro 3

O perigo do piropo

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Tudo leva a crer que será aprovada, a moção desta semana na assembleia municipal de Amesterdão, para que sejam punidas com uma multa de quatro mil e cem euros todas as manifestações de assédio sexual às mulheres. Incluem-se aí o assobio, o chilrear, o cicio, o gracejo, o piropo, o rebolar dos olhos, enfim: tudo o que, da parte do macho, em diversos tons e graduações seja sinal de concupiscência.
Não resta dúvida que a moção será aprovada, talvez mesmo por unanimidade, pois além de ser conforme ao cânone do politicamente correcto, corresponde também à desagradável situação causada, sobretudo, pelos bandos de jovens marroquinos, que sem emprego, e num ambiente de liberdade para eles paradisíaco, percorrem as ruas com a disposição de predadores.
A intenção é boa, mas nem a multa assusta os delinquentes, nem eles têm meios de pagamento, de modo que ficará tudo como dantes.
A esperança das mulheres assediadas reside assim nas últimas previsões eleitorais, que dão o PVV de Geert Wilders como o maior partido. E ele, uma vez Primeiro Ministro, como desejam já 40% dos eleitores, cumprirá o que prometeu: menos marroquinos na Holanda e deportação dos que não respeitam a lei e os costumes.
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Publicado no CM.

sexta-feira, dezembro 2

Gracias, Manuel

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Andrew Sachs (1930-2016)

quarta-feira, novembro 30

O (meu) problema da oração

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Por vezes a vivência de certos momentos leva a recordar um texto escrito em circunstâncias semelhantes. Este é de há nove anos.

Desde pequeno ensinaram-me a crer em Deus, Jesus Cristo, na Virgem e nos santos. Falaram-me de mistérios, de milagres, da Santíssima Trindade, do Sagrado Coração, Lourdes e Fátima. Ao mesmo tempo ensinaram-me a rezar, o que durante anos fiz com o automatismo da inocência.
Depois, sem de todo perder a fé, vivi longos períodos em que as relações com a divindade se me tornaram nebulosas, tal um hábito perdido que vagamente se recorda. Como houve também alturas em que, sem outra porta onde bater, a aflição e o desespero me levaram a orar.
Hoje, com a calma que a idade empresta e a perspectiva do fim próximo, retorno à candura inicial, mas agora despojada do que acho supérfluo.
Creio em Deus. O resto - Jesus, Virgem, profetas, santos, milagres e mistérios... - parecem-me atributos, folclore, perturbam a minha concepção do Criador Uno e Todo-Poderoso.
A Bíblia não a tenho por livro sagrado, sim como documento histórico. Cristianismo, Budismo, Islam, essas e as mais religiões, olho-as com o respeito que merecem os fenónemos de massa milenários, e a perplexidade de que continuem a ser causa de tantos horrores. Os templos interessam-me pela sua arquitectura, os rituais pelo seu colorido. E como na teologia não encontro certezas, somente interpretações e suposições, vejo-me a sós com Deus e debato-me com o problema da oração.
Os padre-nossos que dizia como um autómato, deixaram de satisfazer a minha vontade de comunicação, e não resistem às dúvidas que me ponho, nem à análise do texto.
“Venha a nós o vosso reino” - mas haverá nele também o mal, a crueza e a desigualdade que nos afligem neste em que estamos?
“Seja feita a vossa vontade” - então de nada adianta esforçar-me por um objectivo, querer seja o que for, pedir seja o que for. Aceitar que a Sua vontade seja feita parece-me contradição, pois desdenha das qualidades que Ele próprio me deu para viver e sobreviver, faz de mim um títere, condena-me a um existir fatalista.
Assim cheguei à fase em que as minhas orações, despidas do supérfluo, traduzem apenas um sentimento de fé, comunhão e humildade. Creio em Deus Padre, Todo-Poderoso. Digo-o de olhos fechados, e esforço-me por não desesperar da minha insignificância e do vácuo que sinto.

sexta-feira, novembro 25

Rótulos

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"O rótulo de "esquerda" ou de "direita" confere o conforto da pertença tribal, a garantia antecipada de defesa do grupo-alcateia em caso de ataque vindo do exterior, mas, sobretudo, defende o indivíduo contra si mesmo, resguardando-o do vício trabalhoso de ter de pensar. Mais ainda, é um ansiolítico tranquilizador para o maior dos medos modernos, o pavor da solidão. Da integração numa das duas culturas – de esquerda ou de direita – decorre automaticamente uma reposta padronizada a questões que, de outra forma, exigiriam um esforço e uma autonomia que são descartados graças a um mecanismo que de imediato segrega códigos, rituais, comportamentos e práticas que moldam o gosto e os hábitos, incluindo no plano do comportamento afectivo e sexual, na escolha dos lugares de convívio, restauração e lazer ou no modo de vestuário. Mas, sobretudo, a filiação na esquerda ou na direita determina, tantas vezes inconscientemente, o posicionamento que é suposto ser adoptado em face das mais diversas situações e problemas. Tomar partido a  favor da posição A ou da posição B nem sequer é visto como obrigatório ou coercivamente imposto, sendo antes encarado como o produto "natural" e "espontâneo" de uma dada pertença ideológica ou política profundamente interiorizada ("a minha visão do mundo"), à semelhança do que ocorre com as convicções religiosas nascidas do bricolage espiritual (a "minha fé")."
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In Da Direita à Esquerda – António Araújo – editora Saída de Emergência, 2016.
 

quinta-feira, novembro 24

Quem corre por gosto

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Nas ocasiões em que, nos Países Baixos, o vento sopra acima dos 90 km/h, realizam-se nos diques as chamadas "corridas contra o vento" que atraem um inesperado número de ciclistas dispostos a sofrer.
 

quarta-feira, novembro 23

Gordura e preguiça

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É o excerpto de um artigo do semanário neerlandês Elsevier  sobre a necessidade de movimento, onde entre outras coisas dolorosas se afirma: "Nos Países Baixos metade da população é demasiado gorda; Isso, contudo, acontece com mais frequência noutros países da EU. Na Espanha, Inglaterra, Escócia e Irlanda 70% porcento dos homens tem peso a mais.
70% dos suecos pratica desporto todas as semanas;
64% dos portugueses nunca pratica desporto."

terça-feira, novembro 22

Infantilismo


“O melhor restaurante do mundo sai de Itália se Renzi perder o referendo”

                                                                           (Clique).      
             No Obervador de ontem constata-se que o infantilismo está a atacar os chefs e a política.

domingo, novembro 20

Revista DOMINGO 20.11.2016





Entrevista: Fernanda Cachão / J. Rentes de Carvalho   (aqui)

1-Em sua opinião por que é que este livro não foi bem recebido na Holanda, como conta logo no prefácio? Diz que recebeu pouco menos de vinte euros de direitos de autor…

Um livro destes, contracorrente, só por milagre teria boas críticas ou seria bem aceite, mas também não contei com a atitude do editor, muito cauteloso em não desagradar à multidão do politicamente correcto. Publicou-o porque havia contrato, mas também fez o possível para não o distribuir. Na Holanda continua a não ser avisado, nem de bom tom, dizer que o rei vai nu.

2-Que livro é este?

Se posso parafrasear Pessoa, é o livro do meu desassossego. Em relação à sociedade, à 
manipulação, ao desdém que voto aos políticos em geral, a toda a espécie de profetas que insistem em nos mostrar o bom caminho. Desassossego, também, pela influência das redes sociais e o ambiente que criam, a   facilidade com que nelas se vitimiza ou promove a herói um qualquer pateta; de fazer de conta que é possível ter direitos sem deveres ou normas; que basta exigir.

3-Não poderia antes chamar-se ‘A ira de Rentes sobre a vida de um modo geral’?

Creio que não, porque pessoalmente há muito estou de bem com a vida. A minha ira, e acredite que é genuína, vai para a mentira, o descaro, a manipulação, a trafulhice, a cara de pau com que os políticos e os meios de informação aproveitam e abusam da ingenuidade dos cidadãos, nem sequer os tratando como imbecis, mas atrasados mentais, as "deploráveis criaturas" de que agora se fala.

4-Ainda assim escreve que se pudesse renascer, escolhia ser holandês. Porquê?

Porque a Holanda é um país superiormente organizado, o cidadão sabe-se realmente protegido pela lei, o nível de corrupção é muito baixo, vive-se nele sem necessidade de pedir favores, meter cunhas, pagar luvas, ou ter de falar com o doutor Fulano para que arranje vaga no hospital.

5-Geert Wilders, do Partido da Liberdade holandês (PVV), saudou a “revolução” na América que recuperou “a sua soberania e identidade” depois da eleição de Donald Trump. “O que a América pode fazer, nós também podemos”, prometeu Wilders cujo partido está bem posicionado nas sondagens para as eleições de Março na Holanda.  O que acha que pode acontecer nas próximas eleições? E à Europa depois das eleições americanas?

O partido de Geert Wilders de certeza vai obter excelente resultado nas próximas eleições, mas defronta um colossal obstáculo: só tem eleitores, não tem quadros. A força do politicamente correcto na Holanda é tal, que quem se arrisca a aceitar uma posição no PVV não escapa a ser social e politicamente ostracizado. De modo que a solução será que o PVV participe numa coligação, dando apoio parlamentar ao partido vencedor.
É cedo para falarmos da Europa, mas o avanço do Cinco Estrelas na Itália, e a apressada "simpatia" que alguns países europeus demonstram pela Rússia, de certeza vão trazer interessantes mudanças e dificultar o discurso dos eurocratas.

6-Que legado deixou no país o assassinato há dez anos do cineasta Theo Van Gogh por um holandês de origem marroquina, Mohammed Bouyeri, que atirou oito vezes no estômago e depois o decapitou?

É triste dizer que fora dos seus amigos e dos quantos que admirávamos a sua coragem, e lhe desculpávamos a truculência, Theo van Gogh é passado.
Mas porque dá a medida da cobardia dos governantes e do oportunismo dos seus princípios, é difícil esquecer dias depois do assassinato, o burgomestre de Amesterdão foi tomar chá a uma mesquita "para acalmar os ânimos dos muçulmanos."

7-“Existem muitas holandas, ao contrário de há 50 anos”, escreveu. Qual será a preponderante?
   
   Entre os dezasseis milhões de holandeses há cerca de meio milhão de marroquinos e outros tantos turcos. Esses são os da primeira geração. Eles e os seus filhos acatam em geral as leis holandesas, embora sejam muitos a afirmar a supremacia do  Islão. Se as acatarão quando forem a maioria, ou quase, é a grande incógnita. E como um antigo ministro da Justiça  afirmou: "Se forem a maioria e quiserem a sharia, teremos a sharia".  

8-Cita Borges e escreve que “em todos nós há resquícios de fascismo e racismo”. No que a si toca…

 Claro que há, claro que tenho, e creio que nisso não me diferencio de Nosso Senhor Jesus Cristo ou a Madre Teresa. Mas para esses, muito humanos, defeitos do meu carácter possuo excelentes travões. Não me passaria pela cabeça insultar ou desprezar alguém devido à cor da sua pele, ou julgar-me superior ao meu semelhante. 

9-Contemplou diversas vezes a partida da Holanda mas nunca o chegou realmente a fazer? Porquê?

  Nem creio que o farei, a menos que a Morte ande na minha aldeia a aguçar a foice e me surpreenda lá. A razão simples é que só na Holanda tenho família: mulher, filhos, parentes e aderentes. Em Portugal resta-me a casa do meu avô materno. Mas talvez esse laço seja mais forte do que aparenta, pois há vinte anos que alterno três meses cá e três meses lá.

  10-Fala de como foi um ‘outsider inside’ no pós-25 de abril e sempre se manteve assim. Continua, portanto, a sentir-se um ‘outsider inside’ quando liga agora a televisão portuguesa?
  
   Já o era há muito, continuo a sê-lo, e poderá parecer exagero, ou até pose, mas o facto é que, outsider ou insider, Portugal me dói. Outras vezes envergonha-me, enraivece-me, faz-me desesperar. "Feira Cabisbaixa", de Alexandre O'Nei,l é dos raros poemas que sei de cor. Para mim Portugal é de facto "meu remorso, meu remorso de todos nós."

11-Fala das holandesas que se encontraram com o proletariado no Alentejo, que ainda hoje se encontram anciões alentejanos que “rebolam os olhos ao recordar esse gostoso tempo”. Quem se sai melhor neste seu quadro revolucionário?
  
  Devem ter sido as raparigas, porque além da componente erótica regressaram à Holanda com a satisfação de terem cumprido um dever missionário, instruindo as massas trabalhadoras nas possibilidades do Kamasutra

  12 - O que une o rapaz chegado à Holanda, no pós II Guerra, com o olho em Paris, e o octogenário. E o que os separa?
  
  O benefício dado a este último de poder olhar para trás e separar o trigo do joio, o que valeu a pena do que foi tempo perdido.
  
  13 - Fiquei com a impressão de que tem por hábito e, desde sempre, tomar notas ou manter um diário dos acontecimentos do quotidiano ou do que leu ou observou. É assim?
   
   De facto. Vou anotando. Depois deixo passar bastante tempo,  o que então me ajuda a rir de mim próprio, envergonhado de por vezes me ver a desempenhar aquele papel que nos outros tanto me irrita: o de um sujeito sério.

  14 - “Portugal, se fosse pessoa, já tinha sido condenado por falência”. “A obrigação da Europa para com os portugueses é, a exemplo do que fizeram os EUA com os índios, e o Quénia com os animais, é fechar-nos numa reserva”. “Deixados a nós próprios acabamos por desaparecer”. Resta-nos, portanto, ficar sossegadinhos a apanhar sol na praia da UE?

  Esse parece ser o nosso destino, a espera de que algo de bom aconteça. Mas sossego, sol e praia da EU creio que não vai haver, porque isso é gente que duma ou doutra maneira aparece sempre a apresentar a conta. E os juros.
  
  15 - “Viveu mais longamente do que o tempo indicado pelo calendário”. O que quer dizer com isto?
  
  Na minha juventude a média de vida para os homens em Portugal ia pouco além dos sessenta anos. Fora isso a idade de Jesus Cristo já me parecia suficiente

  16 - Como se vive aos 86 “sem país ou partido e para onde quer que olhe não descortino segurança e paz”?

Não a descortino nos outros, mas tenho-a em mim, de par com  uma sagrada independência. Não devo dinheiro, nem favores, não me prendem benefícios, alianças, amarras ou filiações, a ninguém tenho de prestar contas. Mas é uma segurança e uma paz que se paga caro.

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